Desmistificando a felicidade

Desmistificando a felicidade

A felicidade é um conceito subjetivo porque é originário de um sentimento percebido de forma distinta por cada pessoa. Trata-se de algo inerente ao desejo humano, ou seja, todas as pessoas buscam ser felizes

Paradoxalmente, nossa própria constituição psíquica restringe nossas possibilidades de felicidade e o sofrer nos ameaça a partir de três dimensões, do próprio corpo, com suas dores e medos; do mundo externo; e das relações com os outros seres humanos. Desse modo, a busca pela felicidade se traduziria mais pela evitação do sofrimento do que pela vivência de fortes prazeres.

A sensação de felicidade também varia conforme vamos crescendo. Quando somos crianças, a felicidade pode ser brincar com os amigos ou comer uma torta de chocolate. Na adolescência, a felicidade pode ser representada por uma garota ou garoto que desejamos e enquanto adulto, ela pode ser representada em ter um  emprego bem remunerado, uma casa ou filhos. Já para os idosos, a felicidade pode ser acordar um dia após ter dormido bem, ou não sentir nenhuma dor.

No geral a felicidade pode ser conceituada como um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. Ela pode ainda significar bem-estar espiritual ou paz interior.

Alegria X Felicidade

A alegria e a felicidade são muito confundidas. Enquanto a felicidade é um estado intrínseco, perene, ligado a autoconfiança, serenidade, sensação de dever cumprido e um sentimento de paz interior. A alegria é um transbordamento da felicidade, está em geral ligada a um fato ou ação positivos. A alegria está ligada ao êxtase, é uma manifestação visível da felicidade, ela nos liga divinamente ao momento presente nos conectando ao aqui e agora. Não é necessário que essas emoções andem juntas. Alguém pode ser feliz e não estar alegre em determinado momento e o contrário também é verdadeiro. 

A tristeza e a felicidade

Momentos de ansiedade, incertezas, medos e insatisfação vão acontecer para a pessoa ter novamente vontade de buscar a felicidade. Podemos dizer, que se trata de uma dinâmica prazer-desprazer, onde o princípio do prazer sempre vai querer ganhar. Todo prazer começa com um desprazer. Assim, a vida é um ciclo e a cada momento a energia se renova e é impulsionada pela ideia de obtenção do prazer. 

É isso que nos mantém vivos e em homeostase ou equilíbrio. No momento que essa dinâmica é mais impulsionada pelo desprazer ficamos tristes ou deprimidos. Nascemos com a predisposição para buscar naturalmente e instintivamente a ótima conexão com o corpo, a mente e o mundo externo.

No entanto, vivemos em uma sociedade que prega o prazer imediato e ininterrupto por meio do consumo. Onde não basta minimizar o sofrimento, mas sim, aboli-lo. Uma sociedade onde Ter é mais importante que Ser. É como se existisse uma norma para ser feliz e, por isso, as pessoas buscam enfurecidamente o ideal de felicidade no “Ter” e não em “Ser”, sem se dar conta do quanto este ideal é incompatível com a vida. 

As imposições para se alcançar uma felicidade padronizada, idealizada, acabam arrastando a pessoa para a frustração, culpa, sentimentos de exclusão e impotência. Mais do que isso, as tentativas de anestesiar e de fugir do sofrimento, impedem o amadurecimento das pessoas, uma vez que as impedem de adquirir recursos psíquicos, ou utilizar mecanismos de defesa internos para lidar com o desprazer e com a frustração. Isso se transforma em um ciclo vicioso que além de infantilizar inibe a expansão da vida.

As teorias psicológicas nos ensinam que o desenvolvimento humano é um caminhar contínuo, rumo a uma convivência cada vez mais suportável com o sofrimento e o desprazer. O sofrimento se impõe em nossa existência e nos obriga a crescer, a nos fortalecer e amadurecer. As práticas psicoterapêuticas trabalham para que o sofrimento possa ser encarado e não evitado ou anestesiado, sobretudo nos casos em que este é tão insuportável a ponto de gerar sintomas físicos e psíquicos.

É nesse sentido que as pessoas devem se opor ao apelo dominante da felicidade imediata e ininterrupta tão propagada pela nossa cultura, inclusive pelos inumeráveis livros de autoajuda e o consumo das drogas. O perigo é o de não oferecer tempo nem espaço para as experiências de lutos, fracassos e desprazer. Eu costumo dizer, num absurdo de pleonasmo: “A vida é muito mais ruim do que mais boa” ou “ Já fomos expulsos do paraíso desde os primórdios, Adão e Eva”.

Como dizia Jobim e Vinícius de Moraes: “tristeza não tem fim, felicidade sim…”. Longe de querer propor uma cultura do sofrimento em oposição ao impositivo da felicidade, eu considero apenas, que o sofrimento seja tratado com mais naturalidade e dignidade e que seja acolhido em nossa existência como parte necessária da própria concretização da felicidade.

Felicidade e política

Segundo o Estudo Global de Felicidade 2019, o Brasil é o segundo país que mais considera ter uma nova liderança no país tem relação com sua felicidade. 67% dos brasileiros afirmam que um novo líder político é relevante para seu nível de felicidade, ficando atrás apenas da Turquia, 71%.

Pensando nisso, é preciso fazer uma escolha criteriosa do que ler em jornais e revistas, do que deve assistir em TVs e ouvir nas rádios. Eu fiz isso e deu certo. Hoje também vejo alguns canais de YouTubers.

Infelizmente a falta de competência e responsabilidade nos comentários das notícias e a ética duvidosa praticada pelos meios de comunicação midiáticos, têm diminuído ou deturpado o conteúdo real das informações. Isso gera uma sensação de desamparo e desproteção na população chegando a ser um processo sado-masoquista, “já que eu estou sofrendo dentro da minha bolha bipolar, eu tenho o poder de fazer o outro sofrer também”. As pautas deveriam conter a informação da notícia, e essa deve manter-se fidedigna ao fato em questão deixando a impressão critica do fato noticiado à cargo de cada pessoa.

Descobrindo a felicidade

Como já foi dito anteriormente, definir felicidade não é uma tarefa fácil, afinal, esse sentimento é diferente para cada um que o sente. O Estudo Global da Felicidade 2019, afirma que o índice de felicidade do brasileiro caiu 12% se comparado a 2018. É preciso buscar formas de ser mais feliz.

A felicidade inclui as experiências negativas e depende da pessoa o impacto que elas terão em sua vida. Assim, para alguém descobrir o que a faz realmente feliz é necessário uma boa reflexão. Pode-se fazer algumas perguntas e chegar à uma conclusão que será diferente em cada um.

Você gosta da sua profissão? Como você lida com os momentos de lazer? Como você cuida da saúde? O que você acha da sua aparência? Você consegue reconhecer seus defeitos? Na hora de falar sobre o passado da sua família, como se sente? Qual a importância do amor na sua vida? Quando algo dá errado ou foge aos seus planos, qual a sua reação? Se surge um problema repentino, como você faz para resolvê-lo? Como você classifica os rumos que sua vida tem tomado? O que as outras pessoas acham de você? O que você pensa sobre si mesmo?

Refletindo sobre os nossos próprios sentimentos e gostos podemos ter uma melhor noção do que nos faz feliz no âmbito pessoal e profissional e buscar sempre momentos de prazer que culminarão em uma felicidade mais duradoura. Lembrando sempre que este é um sentimento perene e que não estará presente 100% do tempo, saber lidar com isso é de extrema importância. 

E você, o que te faz feliz? Compartilhe nos comentários os momentos de felicidade mais marcantes na sua vida e tente perceber o que eles têm em comum.

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Publicado em:
9 out 2019

Categoria:

Bem Estar Veja isto


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