AMOR PATOLÓGICO: QUANDO A PAIXÃO SUFOCA

AMOR PATOLÓGICO: QUANDO A PAIXÃO SUFOCA

O Amor Patológico (AP), também conhecido como Amor Adoecido, é caracterizado pelo desenvolvimento de uma dependência afetiva pelo parceiro. Em geral, acomete pessoas com personalidade vulnerável e baixa autoestima, podendo estar associado a outro transtorno mental e resultar em prejuízos e sofrimentos clinicamente significativos.

Os fatores socioculturais, psicodinâmicos e a história de vida do portador devem ser levados em consideração para a obtenção de um diagnóstico exato e para a escolha do tratamento ideal.

É evidente a diferença entre pessoas saudáveis e indivíduos com amor patológico, além disso, os pacientes que amam patologicamente apresentam algumas semelhanças clínicas com dependentes químicos e indivíduos bipolares.

O AP pode ser visto também como um comportamento obsessivo-compulsivo em relação ao parceiro ou caracterizado como uma dependência de amor, que é um subtipo do transtorno de personalidade dependente.

É importante ressaltar que no início do adoecimento, da mesma forma como acorre com o usuário de cocaína ou qualquer outro estimulante, esse padrão de relacionamento proporciona alívio da angustia. Aquele que é portador de Amor Patológico dificilmente enxerga, ou prefere ignorar, o fato de que o companheiro não o faz bem.

Esse comportamento patológico pode acometer homens e mulheres, porém, devido às características culturais, o AP é particularmente mais comum na população feminina. Atualmente, as mulheres enfatizam mais os comportamentos amorosos que os homens, julgando o relacionamento como uma prioridade de vida e atribuindo exagerada importância a aspectos de cunho romântico, como por exemplo: ganhar presentes, se sacrificar em nome do relacionamento, lembrar de ocasiões especiais, dentre outras.

Em geral, os portadores de AP nomeiam de amor a obsessão que sentem por seus parceiros e acabam controlados por suas próprias emoções e comportamentos.

E mesmo se vendo diante de uma situação de prejuízo emocional, esses pacientes não se sentem capazes de se desligar de seus parceiros e regulam a intensidade de seus sentimentos de acordo com a profundidade de seus sofrimentos.

Popularmente vistos como machões e insensíveis, os homens acometidos por AP, ainda que se apresentem como “durões” e que se esquivem de qualquer palavra amorosa, costumam ser mais dependentes afetivamente do que sexualmente, situação que contraria o pensamento popular.

Seria o amor patológico um novo transtorno psiquiátrico? Assim como ocorre com o dependente químico, o portador de amor patológico acredita que o parceiro trará significado para a sua vida e se nega a assumir que está doente ou dependente.

A essência dessa patologia parece não ser amor, e sim o medo de estar só, de não ter valor, de não merecer o amor e/ou de ser abandonado.

O comportamento geralmente é repetitivo e sem controle, de oferecer cuidados e atenção exagerada ao parceiro, com a intenção (nem sempre) revelada de receber afetos e/ou de evitar sentimentos de inferioridade.

Para que exista o amor adoecido, é necessário o coadjuvante, motivo pelo qual a relação doentia é mantida, mesmo após concretas evidências de que o relacionamento está sendo prejudicial para a sua própria vida e, às vezes, para os membros da família.

Conforme supracitado, o quadro de AP pode estar presente em outros transtornos psiquiátricos, associado a sintomas depressivos e ansiosos, ou pode ocorrer isoladamente em pessoas com personalidade vulnerável, que inclui baixa autoestima, sentimentos infiltrados de rejeição, de abandono ou de raiva.

As características manifestadas pelo portador do Amor Patológico podem vir acompanhadas de sentimentos de obsessão, que, muitas vezes, é proveniente de relações de afeto vividas pelo indivíduo quando criança, nos primeiros anos de vida, principalmente com seus pais e/ou cuidadores. Desta forma a pessoa que ama de maneira patológica busca, em seus relacionamentos, satisfazer necessidades afetivas não saciadas na infância, na tentativa de compensá-las.

Nesse ínterim, é importante observar que o atual modelo social também contribui para este quadro clínico. O fato de as famílias serem muito permissivas em relação aos desejos dos filhos oferece condições favoráveis à constituição de sujeitos propensos a tornarem-se inseguros, com superegos fracos e inclinados, portanto, a dependência da opinião e da aprovação do outro.

Nessa perspectiva, ficam os questionamentos: É possível adoecer de amor? Qual a diferença entre o amor saudável e o amor patológico? Ainda, recorrendo ao texto bíblico, apresenta-se a seguinte reflexão: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que ressoa ou um címbalo que retine […] O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça […] permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor” (Coríntios 13-16).

Amar envolve atitudes como cuidar e dar atenção à pessoa amada de maneira livre, respeitando as suas subjetividades. É importante ter consciência de que o ser amado é uma outra pessoa com particularidades que precisam ser levadas em consideração. Ter uma relação saudável pressupõe respeito, compromisso, compartilhamento e, certamente, resultará em crescimento existencial recíproco.

Entretanto, nem todas as manifestações do amor são saudáveis. Quando uma pessoa dá atenção descontrolada e excessiva ao ser amado, gera danos emocionais a si mesma e às pessoas próximas.

A psicoterapia tem sido um tratamento efetivo e sua associação com grupos de ajuda mútua é bastante indicada. O tratamento medicamentoso é útil nos casos em que há comorbidades psiquiátricas e quando não há evidência de sintomas do amor patológico isolado. Apesar de ainda pouco estudado o amor patológico é bem comum e complexo e necessita de mais estudos de campo para estabelecer dados epidemiológicos, confirmar suas relações com outras doenças psiquiátricas e assim possibilitar uma abordagem mais integrada do quadro. Uma melhor compreensão do portador de AP, em todo o seu contexto, oferece benefícios a ele próprio, aos seus parceiros e aos familiares.

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